sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Entenda o corte de vagas no curso de Economia

Matheus Lobo Pismel

Desde o fim do semestre passado, o curso de Ciências Econômicas está dividido. De um lado está a maioria dos professores do departamento, que apoia a redução de 50% nas vagas para os próximos vestibulares. E de outro, estão a maioria dos alunos e uma minoria de professores, que não vê o corte como melhor alternativa para solucionar os problemas do curso.

Formado por um grupo de oito professores, incluindo o chefe de departamento Armando Lisboa e o coordenador do curso Marcos Valente, o Núcleo Docente Estruturante de Ciências Econômicas (NDE) divulgou no dia 27 de junho de 2011 um relatório que indica causas e soluções para problemas como altos índices de evasão e reprovação dos alunos.

A principal causa apontada foi o tamanho do curso, que “permite o ingresso, seja via vestibular ou transferência, de grandes números que não têm condições de seguir no curso. Isto provoca, por sua vez, um grande número de abandonos e desistências”. Por isso, para o NDE, a principal solução seria a redução de 100 vagas oferecidas no vestibular – de 180 para 80, o que representaria 56%. No dia 6 de julho, porém, a proposta inicial foi alterada, diminuindo o corte para 90 vagas, a metade das vagas atuais.

Um dos quatro professores do departamento que criticaram a posição do NDE, o professor Nildo Ouriques acredita que a proposta de corte foi feita basicamente para solucionar a sobrecarga de trabalho. Segundo ele, há dez anos o departamento sofre com a escassez de professores efetivos, tendo trabalhado com, pelo menos, sete professores substitutos por semestre.

Em artigo que questiona a redução de vagas, os professores Valdir Alvim e Lauro Mattei, junto com Ouriques, afirmam que, em 2007, o déficit no corpo docente se agravou com a implantação do Programa de Apoio ao Plano de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), que, segundo o Governo Federal, tem como principal objetivo ampliar o acesso e a permanência na educação superior. “Foi precisamente a expansão do Departamento nos marcos do Reuni,sem a correspondente contratação de professores, que implicou em imensa pressão sobre os recursos existentes, que já eram notoriamente insuficientes”, aponta o documento.

Ainda segundo a carta crítica ao NDE, a situação se agravou com a criação do curso de Relações Internacionais (RI). “Este programa [Reuni] previa para o curso de RI 15 contratações que jamais chegaram, embora em 2011.02 o curso esteja iniciando seu sexto semestre”. O NDE reconhece, em sua réplica, que as contratações necessárias não foram feitas, mas afirma que sete vagas de concurso foram decorrentes da expansão.

Segundo Ouriques, essa expansão foi “necessária, mas precipitada” e a alternativa ao corte é a cobrança efetiva junto à reitoria para que sejam cumpridos os acordos da UFSC com o Ministério da Educação (MEC). Ouriques afirma ainda que tanto o departamento de Economia, quanto o diretor do Centro Sócio-Econômico, professor Ricardo Oliveira, não têm feito pressão para o cumprimento dos combinados.

Representado os estudantes, o Centro Acadêmico Livre de Ciências Econômicas (CALE) respondeu à proposta de redução de vagas no dia 29 de junho, dois dias após a divulgação do relatório do NDE. O CALE argumenta que a avaliação dos professores, elaborada pelo próprio centro acadêmico e respondida pela maioria dos estudantes, apontam outros motivos para os problemas que o curso vem enfrentando, como baixo incentivo à reflexão, pouco contato com a realidade e falta de atividades complementares, como saídas de campo e debates.

Segundo membros do CALE, em outros cursos da UFSC, como a Geologia, a falta de estrutura e de professores é ainda mais grave. Para eles, o curso de Economia poderia servir de laboratório, podendo desencadear cortes também nesses outros cursos. “Tiveram azar de tentar na Economia, porque temos uma representação estudantil forte”, afirma Victor Poli, membro do CALE.

Prova disso foi a pressão feita no dia 10 deste mês, quando, com apoio do Diretório Central dos Estudantes (DCE), 300 estudantes foram à reunião aberta da Câmara de Ensino e Graduação da Reitoria (CEG), onde seria votada a proposta para o corte de vagas, para exigir que fossem realizados maiores debates sobre o assunto. Com isso, a reunião foi cancelada pelo diretor da Pró-Reitoria de Ensino de Graduação (PREG) Carlos Pinto.

A manifestação foi repudiada oficialmente por 35 professores do departamento que assinaram uma carta de esclarecimento no dia 12 deste mês. “É necessário o respeito às práticas de civilidade para convivermos como cidadãos. Democracia exige a observância dos valores morais e republicanos, a utilização de meios institucionais para as decisões sobre o seu presente e futuro”, defendem.

Membros do CALE, por outro lado, acreditam que o procedimento do NDE para aprovação também não foi democrático. Segundo eles, a proposta foi lançada em momento inoportuno, no fim do semestre, e logo votada em regime de urgência, sem que houvesse debate.

Na última segunda-feira, 22, porém, os estudantes alcançaram mais uma vitória. Após cinco dias de vigília na reitoria, o reitor Álvaro Prata divulgou uma nota na qual, entre outras respostas às reinvindicações do movimento estudantil, garantiu que o corte de vagas não acontecerá no vestibular deste ano e que serão contratados 150 novos professores.

Para Poli, a carta representa uma nova conjuntura e o foco agora é levar o maior número de professores para o departamento de Ciências Econômicas. Porém, como a garantia de manutenção de vagas se aplica somente ao vestibular deste ano, os membros do CALE reconhecem a necessidade de mais debates sobre o assunto.

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